
Sei que apenas os íntimos ou os amigos, chamam Eva Wilma de Vivinha. Essa é a forma carinhosa com a qual essa grande estrela é tratada. Aqui eu vou pedir licença para também chamá-la assim. Sem ser entrão, não há como não ter uma certa liberdade com alguém que frequenta a minha casa há tantos anos. Estou falando da televisão da minha casa, é claro.
Às vezes acho que meus textos são um pouco melodramáticos, lembranças de infância, memória afetiva, blá blá blá, whyskas sachê, mas eu gosto de novela, então não posso fugir muito disso. Preparem a insulina e vamos lá.
Como fui uma criança relativamente precoce, a minha primeira lembrança de Vivinha é de 1973, quando ela vivia as antologicas gêmeas Ruth e Raquel de
Mulheres de Areia, sucesso de Ivani Ribeiro apresentado pela TV Tupi. Nessa época eu tinha apenas dois anos e fui com minha família até Itanhaém para assistir as gravações. Me sentia como Leila Diniz num filme de Glauber Rocha: Não fazia a mais vaga idéia do que acontecia, mas estava me divertindo. Minha maior preocupação naquele momento era sair correndo pela praia pra chegar até uma casinha que ficava em cima de um morro. Se não me engano (e devo estar enganado), era a casa do Tonho da Lua (Gianfrancesco Guarnieri). Quando eu estava no pé do morro, minha mãe destruiu minhas ilusões, me capturando e levando de volta. Tratarei disso com Flávio Gikovate. Naquele dia tiramos várias fotos, inclusive uma com minha irmã, minha avó, Vivinha e uma intrusa qualquer. Até hoje as fotos estão guardadas comigo. Contei tudo isso pra dizer que Eva Wilma faz parte das minhas mais tenras lembranças.
Meu reencontro com Vivinha aconteceu vários anos depois, em 1980, na novela
Plumas & Paetês de Cassiano Gabus Mendes. Daí em diante, comecei a prestar mais atenção no trabalho dela, inicialmente de forma apenas sentimental e depois, com o passar dos anos, de forma crítica. Eva consegue transitar pelos gêneros com uma facilidade tremenda. Pode ser uma vilã odiável, como a Maria Altiva de
A Indomada (1997), uma mãe doce como a Angelina de
De Quina Pra Lua (1985/1986), uma médica que defende a ética profissional a qualquer preço, como a Doutora Marta do seriado
Mulher (1998/1999) ou Hilda, a esposa submissa, mas extremamente forte de
Pedra Sobre Pedra (1992). Vivinha é capaz de ser qualquer coisa, qualquer pessoa. Se entrega às personagens de forma completa e nos brinda com interpretações marcantes.
Na minha modesta opinião, Eva Wilma é a mais hollywoodiana das nossas atrizes. Não que ela seja uma estrela difícil, cheia de vontades, mas possui o brilho das grandes estrelas dos anos 40 e 50. Eva tem a mesma aura de Grace Kelly, Ingrid Bergman, Elizabeth Taylor. Tem o rosto pelo qual a câmera e o público se apaixonam. Se Vivinha fosse americana, não tenho a menor sombra de dúvida de que hoje seria uma estrela com o mesmo destaque que as atrizes que mencionei. Eu sei que a Ingrid Bergman não era americana...vocês entenderam o que eu quis dizer.
Além de tudo o que eu já falei, Eva Wilma ainda faz parte da geração que fundou a televisão brasileira. É história viva e deve ser reverenciada como tal. Tudo o que se faz hoje na televisão tem, de uma forma ou de outra, influência de Eva Wilma, dela e de tantos outros como Lima Duarte, Laura Cardoso, Vida Alves, etc, etc.
Numa época em que as atrizes querem lutar contra o envelhecimento a qualquer custo, Eva Wilma nos mostra como é envelhecer com dignidade. Sem tentativas de parecer mais nova, ou de retardar a passagem do tempo, Vivinha assume a sua idade e faz isso com a maior tranquilidade, consciente do seu dever cumprido, tanto na vida pessoal quanto profissional.
Citei algumas atrizes anteriormente, mas a que mais se assemelha a Eva Wilma, na minha concepção, é Audrey Hepburn. Acho que essa comparação deixa claro o que quero dizer.
No ar em
Araguaia de Walter Negrão, Vivinha nos brinda novamente, com mais um meticuloso trabalho, com a mesma entrega mostrada em anos de carreira. Essa entrega significa respeito à profissão que abraçou, mas principalmente, respeito ao público.
Como parte desse público, eu reverencio e aplaudo Vivinha.
Bravo!