
Na nova proposta do blog, pedi aos colaboradores que falassem o mínino possível sobre televisão, já que existem outros especializados no tema. Meu primeiro texto da nova fase falaria sobre outra coisa, mas devido a um determinado acontecimento, tive de mudar meus planos. Terei de falar sobre televisão, ou pelo menos começar o texto falando sobre televisão, já que a coisa vai muito além disso.
Na sexta feira, 25 de março, o SBT apresentou, às pressas, o último capítulo da novela Camaleões, que era apresentada às 15h45. Na verdade não foi o último capítulo e sim uma compilação feita para dar uma conclusão à história, que não poderia continuar no ar. Que Sílvio Santos costuma mexer na grade sem nenhum tipo de critério ou respeito aos telespectadores, não é nenhuma novidade. Acontece que, dessa vez, o homem do baú não teve culpa. A novela teve de apresentar seu final antes do tempo ou seria retirada do ar por ordem do Ministério Público.
A novela apresentava, segundo o MP, conteúdo impróprio para ser apresentado naquele horário, mostrando consumo de drogas “lícitas”, insinuação de uso de drogas ilícitas, consumo de bebidas alcoólicas por parte de adolescentes e assassinato. A opção dada ao SBT, seria apresentar Camaleões às 20h, obrigando a emissora a mudar completamente a sua grade de programação.
O Ministério Público, na verdade aqueles que se usam da força e da legitimidade desse órgão, começam a mostrar contornos preocupantes de censura. Infelizmente, para os que acompanham os bastidores da televisão, isso também não é novidade, mas dessa vez a coisa foi mais além do que estamos acostumados a ver. Nem mesmo na época da ditadura militar, pelo menos não que eu me lembre, vi uma novela ter de ser retirada do ar dessa forma. Roque Santeiro e Despedida de Casado foram proibidas de estrear, mas não tiverem suas apresentações interrompidas enquanto estavam no ar.
Como não sou de ficar apenas reclamando, e tenho medo de acabar me perdendo em divagações, vamos aos fatos envolvendo Camaleões. Em primeiro lugar, as pessoas que monitoraram (essa palavra me causa arrepios) a novela, alegam que existe consumo de drogas lícitas. Bem, se são lícitas não existiria nenhum problema, correto? Ou então o Ministério Público tomaria uma atitude para que elas se tornassem ilícitas. Se o governo aprova, como pode impedir que isso seja mostrado alegando ser mau exemplo? No “quesito” adolescentes consumindo bebidas alcoólicas, esses senhores do MP realmente acreditam que isso é uma deturpação da realidade? Em que mundo eles vivem? Será que nunca freqüentaram nenhuma festa, foram a algum show ou, melhor ainda, não sabem o que os próprios filhos fazem quando saem de casa? Será que são tão ingênuos assim? Pior, acreditam realmente que, caso isso seja mostrado na televisão, vai influenciar as pessoas a fazerem o mesmo, sendo que o exemplo vivo, no dia a dia, dos amigos e dos próprios pais, é muito mais presente? Optei por não falar sobre o item assassinato, ou teríamos de proibir os gibis de Mickey Mouse, o ratinho detetive. Sempre achei Mickey um subversivo....
Agora que já falei sobre televisão, vamos a um ponto mais importante nessa discussão. Quem escolheu e, principalmente, quem deu o direito de alguém escolher e decidir o que você pode ou não assistir? Nunca fui consultado sobre isso. Quando votamos, elegemos pessoas para administrarem o país. Exatamente, são cargos administrativos. Em nenhum momento eu dei permissão pra que alguém resolvesse a que tipo de conteúdo cultural ou informação, eu teria acesso. Se faço isso, se concordo com uma atitude dessas, o que estou dizendo é que sou menos cidadão do que outra pessoa. Sim, pois ela vai ver, ela vai decidir e escolher. Ela pode impor a vontade dela, e a mim só cabe aceitar. Como assim? Mais uma dúvida. Quem são essas pessoas? Qual o nível intelectual delas? Que parâmetros elas seguem nas suas decisões?
No livro “Autores”, Sílvio de Abreu comenta sobre os problemas que teve com a liberação do primeiro capítulo de Vereda Tropical, novela que escreveu com Carlos Lombardi em 1984. No dia da estréia, os dois estavam em Brasília tentando impedir os 32 cortes que impediriam o capítulo de ir ao ar. Até mesmo uma cena em que Paulo Guarnieri fazia o gesto de dar uma “banana” havia sido proibido. Os autores conseguiram liberar o capítulo e, na saída, uma das censoras disse a seguinte frase a Sílvio de Abreu: “Sabe o que é, seu Sílvio? O senhor fez uma novela tão bonita antes, Guerra dos Sexos. Gente fina, com roupa de pele, gente tão bonita. Agora o senhor faz essa novela de gente pobre? Gente pobre é muito feio, deseduca o povo”. Coloquei essa pérola pra mostrar como funciona cabeça de censor. Existe também o episódio em que Gilberto Braga é proibido de escrever a palavra “escravo” em Escrava Isaura. Segundo a censora, a escravidão deveria ser retirada dos livros de história. Como essa gente é escolhida para decidir o que nós podemos ver? Qual é o embasamento deles? Você quer que uma pessoa com esse tipo de pensamento decida a que a sociedade pode ter acesso?
Claro que eu sei que a situação é outra, que o cenário político é diferente, mas é assim que as coisas começam. Não pensem também que eu sou algum radical de esquerda que vê o fantasma da ditadura em todos os lados. Na verdade até acho política uma coisa bem chata, pelo menos nos moldes em que é feita. Só que isso não quer dizer que eu ignore os meus direitos de cidadão. Eu sei o que é bom pra mim, eu sei o que quero e posso ver na televisão, ler nos jornais e revistas, ouvir nos rádios. Não sou criança. Não preciso de ninguém dizendo que saber tal coisa não vai ser bom pra mim. Não estou acostumado a isso. Na minha casa, eu e minha irmã nunca fomos proibidos de ver, ler ou ouvir nada. Tudo era conversado. Com as minhas sobrinhas acontece a mesma coisa. Não aceito uma coisa dessas!
Pra terminar, o que mais me espanta, é a completa apatia da sociedade diante disso. Parece que ninguém vê, ninguém sabe que essa censura velada esteja acontecendo. E assim as coisas vão tomando formas, no meu ponto de vista, um tanto sombrias.
Abra o olho!! Tem alguém escolhendo por você.